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Cultura de Libertação – A assassina da cultura popular 

Por Dionízio do Apodi

“Não tem quem saiba falar no Nagô? Tem, agora tá escondido. Tá tudo isolado. Cadê os pastoril, cadê as quadrilha, cadê os maracatu, cadê os bloco de frevo? Não aparece um cão pra dizer assim: eu vou botar você numa página de jornal”. Esta fala é do grande mestre da cultura popular mossoroense, Seu Deusimar, que segue com seu Maracatu Rei de Paus, com muita dificuldade, desde 1981, além de manter em sua residência um terreiro de umbanda onde muitos adeptos da religião frequentam semanalmente, na comunidade do Abolição 5. Retirei essa fala da rede social da amiga Fernanda Albano, que por esses dias esteve gravando com o mestre.

A fala é forte e para mim não é novidade. Mesmo ouvindo coisas parecidas pelos lugares onde ando e convivo, nas bases de nossa cultura, não quero de forma alguma me acostumar. Me recuso trocar a indignação pela indiferença ou acomodamento. Mesmo falando de Mossoró, onde culturalmente dizemos que é um país, este isolamento da cultura popular pelo poder oficial, que é proposital, é bem familiar na maior parte dos lugares de nossa região. Portanto a reflexão se alarga, não se restringe para a minha aldeia.

Como Deusimar, conheço muitos mestres, mestras, artistas e grupos populares, de importância enorme para a cultura do estado, que estão isolados, como diz a fala inicial. Muitos até cansados, sem um apoio mínimo que seja, por parte dos poderes públicos, que pela nossa Constituição deveriam ter o papel de garantir o acesso de nossa população a esses bens culturais.

O cenário da pandemia deixa a gente apreensivo, porque grande parte destes grupos e artistas populares a que me refiro foram os que mais sentiram, e sentem, os impactos econômicos, e poucos tiveram acesso a algum recurso da Lei Aldir Blanc, que foi feita para o setor cultural, mas que chegou a uma parte reduzida e privilegiada com relação a informação. Em Mossoró mesmo há um engano: se você pegar no papel e sair contando quem recebeu recursos da lei, pode ter a impressão que foi muita gente, mas não! Apenas uma classe de artistas, que também tem direito aos recursos, mas que não representa a imensidão da cultura mossoroense que está nas periferias e zona rural. Isso não é uma crítica a quem recebeu, mas a quem podia fazer com que pessoas que nunca são lembradas, recebessem. Precisamos sair desse sentimento de mesquinharia achando que a cultura é só o que está do nosso lado, ao alcance de nosso conhecimento. A cultura é ampla, muito larga. E para quem tem olhar estreito e não enxerga acima de seu próprio umbigo, como nossos gestores e meia dúzia de artistas privilegiados que pulam de galho em galho para beneficiamento próprio, de gestão em gestão, fica muito difícil largar a cultura de bajulação para enxergar a riqueza imensa que temos em nossas bases, principalmente na periferia e zona rural, e que estão sendo assassinadas por essa prática que fortalece apenas o que dá palanque para os nossos gestores, que não possuem plano de governo, projeto para a cultura, segurança, saúde, educação… e sim, projeto de permanência no poder.

Um exemplo que eu cito de assassinato, sem medo de ser mal compreendido, porque a “esperteza” de quem participa dos benefícios que a bajulação lhe dá, já distorce o que a gente fala mesmo, sem pena, é o Mossoró Cidade Junina. Não sou contra e nunca fui contra o evento. Mas sou contra a forma que ele é executado, que violenta a nossa cultura popular.

Quem tiver um pouquinho mais de idade, mas não precisa ir muito longe, lembra a quantidade de arraiás que existiam em Mossoró, que aconteciam em todo o período de junho, nos bairros e zona rural. Com o fortalecimento exclusivo do Cidade Junina, para onde vão todas as verbas possíveis, não houve mais espaço para os bairros e comunidades rurais durante este mês, porque o evento sufoca o que resiste, daí alguns, dos poucos arraiás que ainda existem, acontecerem apenas em julho ou agosto, fora do contexto das festas juninas. Cito esse exemplo, mas essa forma de fazer o Mossoró Cidade Junina tem estrangulado os outros segmentos culturais. Basta ver que enquanto uma banda vem tocar uma hora e meia, numa das noites de evento,  por trezentos mil reais, como temos algumas que vêm nesse preço, fico sempre imaginando que toda a cultura de Mossoró, durante o ano inteiro, não dispõe de metade desses recursos. Só há recursos para os grandes eventos que servem de palanque para os “profissionais da política seguirem carreira”. Uma aberração! De envergonhar quem ocupa o poder. Mas não há vergonha nenhuma, porque os poderosos dispõem até de artistas para fazer defesa do que não tem defesa, e esfacelar o já esfacelado movimento cultural mossoroense. Para quem leu A Revolução dos Bichos, de George Orwell, são os porcos Napoleão (que comanda) e Garganta (que cumpre ordens e fantasia as coisas), em ação, tal qual (indico a leitura).

Tenho consciência que dispor de recursos ajuda mas é necessário também um olhar sensível, junto com políticas públicas, para a cultura que resiste nos bairros e zona rural. Os nossos gestores mossoroenses sempre foram tão mesquinhos que quando discursaram, em um ou outro momento perdido, em favor dessas camadas, foi para levar artista até lá, sem enxergar que a periferia e comunidades rurais não são lugares apenas para receber, mas de desenvolver seu protagonismo cultural. O olhar de nossos gestores nunca levou em consideração os da zona periférica e rural, os que fazem cultura lá, sempre foi um olhar de caridade, de dominação, de “ir lá salvar esse povo que precisa de mim”. Não há desejo de dar asas a quem lá reside.

A fala de Deusimar precisa chegar forte em cada um, em cada uma, para termos consciência das injustiças, de como isso tudo é desigual e promove meia dúzia, que vive às custas do sofrimento e luta da maioria. Aos poucos, e devagar, a cada domingo, vou colocando mais um ponto para compreendermos melhor, para esclarecermos. O que critico eu proponho saídas, de como poderia ser feito. Falo porque conheço o que estou dizendo. A consciência do que acontece por trás das coisas é o primeiro passo para sairmos da apatia. Quem puder, compartilhe esse texto com alguém.

Até o próximo domingo!

Abraços e há braços!

Dionízio do Apodi

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4 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns camarada, adorei o seu artigo no nordeste 360, concordo com sua fala e me solidarizo a a luta desses mestres do saber popular, invisíveis aos olhos do poder público. Este espaço semanal assumido por Dionizio do Apodi, na imprensa é de suma importância pra nossa luta! Até domingo e muito obrigado…

  2. Que maravilha, Grupo Arruaça, receber essa resposta ao texto. Seguimos com esperança de que a luta vá se fortalecendo. Com vocês a luta deixa de ser apenas dolorosa e torna-se prazerosa também. Abraços e há braços!

  3. Bravos, querido amigo. Bom ter alguém que descortine essa falsa imagem do estado e suas políticas públicas de estado, escamoteando políticas públicas de cultura.

    • É a função que este espaço pode ocupar, amigo! Acredito no poder de conscientizar as pessoas. A informação é o principal instrumento. Um abraço.

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