O pragmatismo político de Gilberto Kassab deu hoje mais uma demonstração de força ao praticamente exaurir a presença do PSDB na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Com a filiação formal de seis parlamentares tucanos ao PSD, o partido de Kassab não apenas expande sua base de apoio ao governo de Tarcísio de Freitas, mas desfere um golpe quase letal na legenda que governou o estado por quase três décadas. O movimento não passou sem turbulências: o deputado federal Aécio Neves, uma das poucas lideranças nacionais que restam ao PSDB, reagiu publicamente comparando a postura de Kassab à de um "fundo abutre", que se alimenta do espólio de siglas em crise.

A estratégia de Kassab é um estudo de caso sobre a ocupação do centro político. Ao se posicionar como o fiel da balança entre o governo federal e as gestões estaduais de oposição, o PSD atrai parlamentares que buscam viabilidade eleitoral e acesso a estruturas partidárias mais robustas. Para o PSDB, a perda desses quadros em seu reduto histórico representa mais do que uma redução de bancada; é o esvaziamento de uma identidade programática que, outrora, equilibrava o debate econômico e social no Brasil.

Sob uma análise conservadora moderada, a concentração de poder nas mãos de um único articulador como Kassab levanta questões sobre a pluralidade do sistema partidário. Embora o PSD se apresente como uma legenda de "gestão", a ausência de uma oposição tucana organizada pode levar a um vácuo de debate doutrinário. Por outro lado, o enfraquecimento do PSDB é, em grande parte, resultado de suas próprias divisões internas e da incapacidade de se reconectar com o eleitorado de centro-direita, que hoje parece preferir opções que transitem com maior clareza entre o conservadorismo nos costumes e a eficiência administrativa.

A conclusão deste episódio aponta para um redesenho das forças para 2026. Kassab agora detém as chaves de alianças fundamentais tanto para o projeto de reeleição de Tarcísio de Freitas quanto para eventuais composições no plano federal. Para o PSDB, o caminho da reconstrução parece cada vez mais estreito e dependente de uma autocrítica profunda. No tabuleiro de Brasília e de São Paulo, o pragmatismo venceu a tradição, e o custo dessa transição ainda será mensurado nas urnas.