O Rio Grande do Norte vive um momento de degradação institucional que desafia a lógica da política tradicional. O que deveria ser um processo natural de sucessão transformou-se em um "jogo de empurra" que revela a face mais cruel da atual situação potiguar: o estado tornou-se administrativamente inviável. A decisão da governadora de abandonar o Executivo para buscar o abrigo de uma vaga no Senado Federal, somada à declaração do vice-governador Walter Alves de que não pretende assumir as rédeas do Palácio de Despachos, coloca o RN em um quadro de insolvência política que beira o surrealismo.

A relutância em assumir o governo não é fruto de desprendimento, mas de um cálculo frio sobre a herança maldita deixada por quase duas gestões consecutivas de uma mesma orientação ideológica. Após sete anos de administração, o Rio Grande do Norte apresenta indicadores fiscais alarmantes, com um endividamento crescente, dificuldades crônicas no pagamento de fornecedores e uma incapacidade de investimento que paralisou obras essenciais de infraestrutura. Assumir o governo agora, para qualquer sucessor, significa carregar o peso de um passivo bilionário e a responsabilidade de gerir um estado quebrado, sem o bônus político das entregas e com o ônus de medidas de austeridade que o atual governo evitou por conveniência eleitoral.

Sob uma ótica de responsabilidade fiscal e administrativa, o quadro é de um deserto técnico. A gestão que se finda deixará como legado um estado com a máquina pública inchada e serviços básicos — como saúde e segurança — operando no limite do colapso. O ineditismo desse vácuo sucessório expõe uma verdade incômoda: as lideranças políticas locais parecem ter ciência de que o modelo de gestão adotado desde 2019 exauriu as capacidades do RN. Ao se recusar a assumir, o vice-governador evita vincular sua imagem a uma "bomba relógio" fiscal que promete detonar nos próximos meses, deixando o comando do estado, possivelmente, nas mãos do presidente da Assembleia Legislativa em uma gestão de transição precária.

O destino do Rio Grande do Norte, neste cenário, é a incerteza. Sem um comando firme e com as contas em frangalhos, o estado corre o risco de ver sua paralisia se aprofundar, afastando investidores e sacrificando ainda mais o contribuinte que já arca com uma das maiores cargas tributárias do Nordeste. A pergunta que ecoa nos corredores do poder e nas ruas de Natal e Mossoró é sintomática da falência de um projeto político: o que sobrou de um estado onde até os seus governantes parecem querer distância da caneta oficial?

A história cobrará o preço dessa omissão e da má gestão que a precedeu. Enquanto o jogo sucessório se perde em estratégias eleitorais para 2026, o cidadão potiguar permanece órfão de uma liderança capaz de encarar os números com coragem e a administração com o rigor técnico que o momento exige. O Rio Grande do Norte não precisa de projetos de poder pessoal; precisa, urgentemente, de um choque de gestão que o tire da UTI financeira e institucional.